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Transplantados do séc. XIX para nos assombrar

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.04.17

 

 

As lideranças europeias não souberam lidar com o caso Dijsselbloem. Primeiro porque não perceberam a sua dimensão cultural, depois porque a sua perspectiva está formatada pela lógica financeira.

O que nos leva a perguntar: como é possível que ainda tenhamos de aturar, em lugares estratégicos para a possibilidade de reabilitar os valores europeus, indivíduos transplantados do séc. XIX? 

Não é uma questão de palavras, como disse o ainda presidente do Eurogrupo, é a cultura que está por trás, própria de um burguês do séc. XIX: vinho e mulheres.

Não é uma questão de palavras, porque voltou a repetir a palavra solidariedade com a definição subvertida, o que tornou a explicação ainda mais horrível do que a entrevista original. A arrogância está lá, eu tenho razão, as palavras é que não foram bem escolhidas.

 

A solidariedade não foi com os países intervencionados, foi com os grandes bancos, porque essa é a sua prioridade: a finança, a moeda.

Foi nisto, nesta lógica fundamentalista, nesta máquina metalizada, que se transformou a Europa das estrelinhas. A que os países e os seus cidadãos têm de se submeter. É isto que Dijsselbloem representa no Eurogrupo, os interesses dos grandes bancos e da moeda.

Enquanto a Europa das estrelinhas nos quiser assombrar com a sua cultura do passado bafiento de cofres fechados, não podemos construir o futuro.

O futuro já aqui está, outras regiões do globo já vivem e respiram a cultura da colaboração, mas a Europa das estrelinhas, que foi vanguardista noutras épocas, virou-se para o passado. 

 

 

 

publicado às 06:31

Não, nem todos somos preconceituosos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 26.03.17

 

 

Uma frase que me incomodou, a propósito dos comentários televisivos sobre o preconceito cultural de Dijsselbloem: Todos somos xenófobos e preconceituosos. Depois de uns mimos sobre os holandeses que não vou repetir.

A sério? Somos todos xenófobos e preconceituosos? Não, nem todos somos xenófobos e preconceituosos.

Dos holandeses nas praias do Alentejo, que prefiro ao Algarve, guardei os sorrisos, a descontracção, a amabilidade. A simplicidade de quem aprecia a vida. E nisso não se distinguem das pessoas comuns de qualquer país europeu. Ou de qualquer região do planeta.

 

O preconceito cultural surge-nos mais frequentemente nas elites e nas instituições. Não nas pessoas comuns. A não ser que lhes repitam, nos discursos oficiais e nos media, que a culpa da austeridade (neste caso específico) é destes e daqueles por isto ou por aquilo.

Dijsselbloem transmite a cultura de uma instituição europeia que, cinicamente, passou a informação errada sobre a austeridade às populações que diz representar.

Dijsselbloem representa, na verdade, os interesses financeiros. De uma Europa que tem a lata de proteger, no seu próprio coração, fugas de capital e evasão fiscal.

É essa a grande mentira e cinismo que Dijsselbloem representa, embrulhada no preconceito cultural e no bullying político: culpabilizar as populações (dos países intervencionados), humilhar as populações (Grécia), e mantê-las no double bind, a aceitar continuar a alimentar a máquina financeira.

 

É esta a descodificação cultural que temos a responsabilidade de promover nos media e nas redes sociais. As pessoas comuns, as que foram sujeitas a esta inconcebível praga cultural, têm direito a respirar de novo e a apreciar a vida.

E os responsáveis europeus terão de se adaptar e depressa, se não querem desmantelar o melhor que a Europa nos pode trazer a todos: paz, segurança, prosperidade. Que só é possível em democracia e colaboração.

Dijselbloem não tem lugar nessa nova cultura europeia, mas tem uma carreira promissora no grande banco onde a crise financeira começou.

 

 

 

publicado às 12:47

 

 

Não me admirava nada que o presidente do Eurogrupo, título pomposo para um funcionário da UE que preside a um grupo de ministros das finanças, já esteja na lista das persona non grata em todos os países do sul. Não me parece que possa vir a ser bem recebido se pensar em vir cá passar férias. :)

Para a personagem os povos do sul gastam dinheiro em copos e mulheres e depois vão pedir dinheiro emprestado aos do norte. Os do norte foram solidários blá blá blá... O simplório cultural, além de não perceber nada de finanças, também não nos conhece.

 

Na perspectiva de uma análise psicológica, trata-se de bullying político, violência verbal contra um bode expiatório de que se serve para confirmar o seu poder e influência e/ou para compensar uma frustração por ter visto o seu partido político encolher drasticamente nas eleições holandesas e/ou porque lhe está na natureza de sádico obsessivo.

 

Quando os próprios funcionários da UE são os transmissores de preconceitos culturais (e já não é o primeiro caso, já aconteceu com altos funcionários), a possibilidade de uma Europa unida, democrática, dinâmica, próspera, virada para o futuro, torna-se mais remota.

Neste caso, em que a personagem não foi eleita, penso que o mínimo que os responsáveis pela sua nomeação devem fazer é apeá-lo quanto antes. Que vá exercer a sua função de bullyer para um local onde não faça muitos estragos, olha por exemplo, o grande banco onde todas estas personagens acabam a sua carreira. :)

 

 

 

publicado às 20:19

A afirmação de um governo de esquerda no contexto europeu actual

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.05.16

 

 

Esta semana foi muito rica em surpresas, umas boas outras más.

As boas primeiro:

- o ministro da Educação, apesar de enxovalhado pelos lóbis da Escola ponto, revela-se um verdadeiro gestor político com uma visão ampla e clara da Escola Pública e da Educação;

- o governo, apesar de pressionado por Bruxelas, revela-se um verdadeiro governo com uma estratégia política e económica para o país;

- o PM, apesar das tentativas de o fragilizarem e/ou manipularem psicologicamente, revela-se um líder político com inteligência, maturidade e diplomacia eficaz. Afinal, já se tinha revelado como o negociador.

 

Agora as más:

- a Escola ponto não arreda pé, quer continuar a ser sustentada pelo contribuinte. Tem-se mantido até hoje desviando turmas da Escola Pública, dada a curva descendente demográfica da população estudantil e da emigração de casais em idade fértil. O argumento da sua sustentabilidade financeira não pode, pois, ser considerado, uma vez que já estava a furar a lei. E o argumento da crise social ainda menos, pois em crise social permanente tem vivido a Escola Pública desde Maria de Lurdes Rodrigues até Crato;

- Bruxelas e as suas estranhas personagens desdobram-se em conferências de imprensa tentando manipular e condicionar os cidadãos europeus, desta vez Espanha com eleições à porta, e Portugal, que funciona com um governo de esquerda. O aviso é claro: para ser aceite por Bruxelas, o governo deve ser de direita. Estas personagens perderam a credibilidade política, se é que que alguma vez a tiveram. Não são eleitos por ninguém, ninguém os conhece. Além disso, o seu discurso é medíocre e repetitivo. O poder destas personagens é ilegítimo e, por isso mesmo, perigoso;

- qualquer tentativa de fragilização do PM, neste contexto europeu e nacional, é prejudicial para a Europa em primeiro lugar, pois, com a Itália e a Grécia, somos um exemplo de excepção à regra da tendência da viragem à direita e até de extremismos de direita, e para o país em segundo lugar, pois vamos precisar de toda a margem de manobra política que conseguirmos para enfrentar os obstáculos que Bruxelas nos prepara e os desafios que a economia nos vai colocando à frente.

 

 

De onde se conclui que a afirmação de um governo de esquerda no contexto europeu actual é uma insolência ameaçadora para as personagens da Europa das estrelinhas - CE, Eurogrupo e outros sótãos e caves de Bruxelas - como insolente e ameaçadora é a própria democracia.

Lembram-se do que aconteceu à Grécia e que estas personagens nos fazem questão de lembrar? E apesar das humilhações que sofreu, a Grécia ainda acolheu milhares e milhares de refugiados? É na gestão desta crise humanitária que se vê a cultura e a  fibra de um povo.

No norte e centro da Europa vimos fronteiras a fechar-se. Bruxelas teve a indescritível ideia de pagar à Turquia para receber muitos de volta e os que continuam a vir. Por aqui se vê a cultura e a natureza da Europa política actual.

Espanha é agora o próximo território de ensaio da manipulação de Bruxelas. Dependendo dos resulatdos eleitorais se verá a próxima estratégia.

Daí a importância do governo português se manter intacto e determinado, pois vai precisar de toda a sua legitimidade política para se continuar a afirmar neste contexto adverso. 

 

 

 

 

 

publicado às 10:03

A cor e o som da violência

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.03.16

Não é correcto dizer-se que a violência do terrorismo é recente na Europa e no mundo ocidental. A última década foi relativamente calma por estes lados, graças a Deus.

Mas a história da violência do terrorismo ainda está presente na minha memória desde a infância. Os anos setenta e os desvios de aviões, os jogos olímpicos de Munique, o IRA na Irlanda do norte, os Baader-Meinhof na Alemanha, as Brigadas Vermelhas na Itália, Aldo Moro... Isto tudo era notícia que enchia jornais. Algumas destas histórias eram dissecadas até ao pormenor na Reader's Digest, ainda em pronúncia brasileira. E isto em cima das histórias da guerra colonial e das filmagens do mato e dos votos de Boas Festas no Natal: até ao meu regresso.... Muitos não regressaram.

Os anos oitenta, noventa, e o início dos anos dois mil também foram agitados. A violência terrorista culminou em Nova Iorque e em Madrid. Voltou recentemente, desta vez em Paris e Bruxelas.


É sim correcto dizer-se que a violência do terrorismo se tornou mais preocupante. Antes os terroristas ainda divulgavam um motivo político e os ataques eram dirigidos e cirúrgicos. Agora os alvos são cidadãos indefesos. O que torna tudo mais horrível. A insanidade parece-me maior, é a glorificação da morte, a cultura da morte, o vazio total.


Para uma criança as histórias de violência adquirem uma cor e um som, pelo menos foi assim comigo. A cor, o cinzento do fumo e o vermelho do sangue. O som, uma sirene estridente e gritos aflitos. 

Por isso fiquei tão perturbada ao ver as filmagens do atentado recente no aeroporto de Bruxelas. Via-se fumo e ouviam-se gritos que me pareceram de criança.

 

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

  

publicado às 10:26

Cidadãos europeus: plano B, C e D (d' A Vida na Terra)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.06.15

E de repente perdemos o pé e toda a realidade que nos era familiar surge-nos agora completamente alterada. Vivíamos na ilusão de uma certa previsibilidade. Digo ilusão, porque a incerteza tornou-se a norma na Europa: "os mercados estão nervosos"... "os juros subiram"... "o BCE injectou mais n mil milhões nos bancos"... 

Tudo gira à volta da lógica financeira, mutável e volátil, minuto a minuto.


Para já, UE, CE, BCE, FMI, Eurogrupo, já não serão vistos como entidades competentes e responsáveis para prevenir situações críticas, para aprender com os erros, para negociar e fechar acordos.

Dito de outro modo, os cidadãos europeus perderam a ilusão sobre a capacidade das instituições europeias e internacionais de prevenir a tempo ou agir de forma rápida e eficaz em situações de emergência.


O que aprendemos quando perdemos a ilusão da protecção? Quando descobrimos que as instituições europeias e internacionais se movimentam na lógica financeira e não na economia real? A economia real que é a nossa vida concreta, a nossa sobrevivência, o nosso futuro? Isso mesmo, tentamos encontrar formas viáveis e criativas de sobrevivência.


O primeiro grande desafio: como manter a calma, a reflexão e a sensatez, em tempos de grande receio e incerteza? É que estas capacidades estão na base das melhores decisões.


Reflectir: enquanto cidadãos europeus, estamos todos na mesma plataforma instável. É nossa responsabilidade procurar um plano B, um plano C, e mesmo um plano D.

Com que recursos? Tecnologias de informação e comunicação; rapidez de raciocínio, flexibilidade e criatividade das novas gerações e a nova cultura da colaboração.


Planos B, C e D:


Plano B - é o mais difícil porque se trata de construir sobre ruínas em alguns países e regiões. Economia destruída sem substituição por outra. Classe média na pobreza. Recursos entregues a privados. Na actual situação de emergência da Grécia: pagamento ao FMI dos tais 1,7 mil milhões de euros, o equivalente a uma conta num qualquer paraíso fiscal da Europa. Como as instituições europeias e internacionais não querem ir por aí e aguarda-se o resultado do referendo, há que resolver isso por outro lado. Logo a seguir e dependendo do resultado do referendo: preparar uma fonte de financiamento alternativa, outro tipo de crédito. O mais provável é que este plano B já tenha sido iniciado pelo governo grego.


Plano C - começar a preparar desde já (e este plano já inclui os países mediterrânicos), a possibilidade da saída do euro. Esta saída já devia ter sido preparada, aliás, aos primeiros sinais do fiasco do euro. Aqui as soluções podem mesmo passar por desenhar economias não baseadas na lógica do sistema financeiro, e mesmo relativamente independentes de um sistema que só produziu desequilíbrios que já atingiram o limite do sustentável a todos os níveis.


Plano D - criar uma cultura de colaboração entre países e regiões, propondo soluções viáveis e ajudando a concretizá-las, isto é, passar da lógica das emoções reactivas à construção de novas comunidades inter-países e inter-regiões, úteis e eficazes. As novas gerações já funcionam nesta nova lógica.

 

 

 

 

 

publicado às 13:06

A verdadeira ironia (d' AVida na Terra)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.01.15

Do Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, António Morais Silva, Editorial Confluência, 6ª edição: Ironia = Forma de interrogação outrora empregada por Sócrates em relação aos sofistas e que consistia em levá-los a contradições sucessivas para os convencer dos seus erros. // Sarcasmo em que se diz o contrário do que se que dizer e em que só pelo tom se reconhece a insinceridade das palavras. // Aquilo que apresenta contraste frisante com o que logicamente devia ser.

A verdadeira ironia desta tragédia recente em França é que os auto-intitulados "libertários", isto é, os que defendem a "liberdade acima de tudo", estão a contribuir activamente, e sem disso terem sequer consciência, para a limitação da liberdade na Europa.
E comparar a sátira agressiva (já vou explicar porque a considero assim) com o jornalismo de investigação ou com a reportagem de guerra que tornam visíveis as mortes anónimas diárias, não é compreensível.

Causar a morte de outro é o mesmo crime, não é isso que está aqui em causa.
O que está aqui em causa é a violência, a sua necessidade, a construção social de "inimigos", a alucinação de "inimigos", seja em nome da laicidade "libertária", seja em nome do fundamentalismo religioso, seja em nome do pragmatismo financeiro.

A violência e o ódio ateiam-se de várias formas, com palavras, com imagens, com armas.
Reparem que não encontramos a palavra "inimigo" apenas nos discursos inflamados dos fundamentalistas. A palavra "inimigo" surge com preocupante frequência nos discursos de políticos ocidentais, da esquerda à direita.

Tudo o que dizemos ou calamos, tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, tem consequências. Primeiro estamos sensíveis à nossa própria experiência, seja agradável ou desagradável. A pouco e pouco aprendemos a ver e a sentir as experiências dos outros e a sentir o que os outros estão a sentir porque já o sentimos. É  a partir desta experiência que surge a consciência. E é a partir desta experiência que surge a responsabilidade.

A verdadeira ironia, a meu ver, é esta contradição humana: em nome do que se acredita (ou se diz acreditar) provocar exactamente o contrário.
Os defensores da "liberdade acima de tudo" estão a contribuir para um caminho securitário e limitador da liberdade (veja-se o que aconteceu depois do 11 de Setembro).
E os defensores da "vida", da "segurança", da "tranquilidade", da "tolerância", estão a contribuir para o aumento das divisões, fracturas e violência.
Como? Deixando-se embalar por palavras, imagens e ideologias que trazem em si mesmas a violência, a fractura, o ódio, a humilhação de outros.
Defender a vida e a liberdade é ter consciência das consequências das nossas palavras, atitudes, comportamento. Defender a vida e a liberdade é defender a paz e rejeitar todo o tipo de violência

A verdadeira ironia está de olhos abertos a olhar para dentro de nós e para o mundo. Pode ser directa e cruel, mas nunca apela à violência, nunca humilha. Pelo contrário, confere-nos o poder de nos sentirmos vivos, conscientes e unidos.
A verdadeira ironia traz em si mesma a capacidade de aceitarmos a nossa fragilidade e as nossas contradições. A verdadeira ironia une-nos a todos na nossa humanidade.

 

Também senti a crueldade da ironia neste início de ano: afinal comecei a falar da possibilidade da Europa se abrir e conseguir receber refugiados e emigrantes, e dias depois o futuro da Europa vai pender para o caminho inverso.

 

 

 

 

 

publicado às 12:36

A cultura da morte (d' A Vida na Terra)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.01.15

Vivemos num mundo estranho em que a ficção se mistura com a realidade e tudo se assemelha a um guião de um filme previamente escrito.

As populações seguem esse guião obedientemente, sem reflectir no papel que lhes e atribuído.

Para encontrarmos algum sentido, alguma lógica nas informações que vamos ouvindo e vendo, temos de estar atentos aos pequenos pormenores. Mas mesmo assim tudo nos parece irreal.


Como conciliar por exemplo:

- o jornal satírico já tinha sido vítima de um atentado à bomba e recebido várias ameaças e, por esse facto, as instalações do jornal tinham direito a guarda policial;

- o cartoonista desafia o destino com uma provocação sobre um possível atentado ainda em Janeiro;

- os serviços secretos franceses andavam a vigiar os movimentos destes dois terroristas há já algum tempo.


Apesar de nos ser dito que muitos atentados são evitados pela intervenção dos serviços policiais, a verdade é que este atentado estava já anunciado e era quase uma certeza esperada, pelo menos pelo cartoonista principal.

O que mais me incomoda é a morte dos mártires involuntários. Os mártires voluntários levam sempre atrás de si a morte evitável de outros, os que querem viver.


Neste mundo estranho vivemos o culto da cultura da morte, o fascínio pela violência, seja a das armas, seja a das palavras, seja a das imagens.

Lembro-me bem das anedotas sobre a fome em África, como se fosse tema sobre o qual é possível ironizar.

Assim como não é possível ironizar sobre o terrorismo, os fanáticos, os psicopatas.


Hoje vemos que não são os elementos supostamente mais informados e mais cultos de uma sociedade que se comportam como modelos de tolerância e democracia, mas sim as pessoas comuns, as pessoas simples.

A verdadeira cidadania implica uma responsabilidade relativamente às diferenças culturais e uma rejeição de toda a violência verbal ou comportamental.


O que está a acontecer em França lembra-me o filme Babel em que as elites sociais, as instituições, as organizações, são muitas vezes os elementos perturbadores, ao criar divisões e conflitos, enquanto as populações conseguem gerir mais facilmente as diferenças culturais.

É que afinal somos todos o reflexo uns dos outros neste multifacetado rosto humano, em que nos reconhecemos como parte de uma mesma humanidade.

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 20:48

Construir tudo de novo e pintar de fresco (A Vida na Terra, 2014.05.01)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.07.14

Alguns pontos para reflexão:

- em que situação estamos hoje como país, comunidade, famílias, pessoas?

- a que se devem os actuais desequilíbrios a todos os níveis, económico, social, do acesso à justiça, à saúde, à educação, a um trabalho digno e valorizado?

- qual a cultura de base que permite tais desequilíbrios, fracturas, desvios na organização da nossa vida colectiva?

- como contrariar essa cultura de base, retomando os ideiais iniciais da democracia, do equilíbrio económico e social, da energia vital de uma comunidade?

 

O regime actual será incapaz de se reformar de dentro e já se adaptou e organizou (hoje diz-se blindou) para neutralizar qualquer mudança que o possa pôr em causa. O regime de hoje tem a enorme vantagem de estar apoiado numa Europa que também traiu os seus princípios fundadores democráticos e se rendeu a uma cultura de base totalitária, por sua vez apoiada na finança internacional e nos grandes grupos económicos trans-continentais. Dito assim, parece um discurso ideológico, uma doutrina, mas estou simplesmente a descrever o que consigo perceber e deduzir.

 

 

 

 

É por essa constatação, de que este regime está blindado, que terá de ser a sociedade civil a iniciar uma nova construção e uma pintura de frescoO seu desenho é muito simples: em rede, pessoas, famílias, comunidades. O apoio mútuo, económico, social, jurídico.

Uma intervenção a todos os níveis, utilizando a margem que ainda resta às pessoas comuns, aos cidadãos, de algum poder de influência, como consumidores e como eleitores sobretudo, porque a margem está a ser reduzida e contraída até à sua anulaçãoHá muitas formas de neutralizar e anular os poucos direitos de cidadania que ainda restam. Como disse, o regime está blindado em novas leis que se baseiam perversamente numa emergência nacional e que varrem as leis existentes, até as leis básicas que organizam um país, as da democracia.

 

Os jovens têm aqui o seu papel. Afinal, são os mais idealistas, os que têm mais energia, os que se movimentam melhor num mundo conectado ao segundo. Mas será um movimento inter-geracional: as comunidades serão mais criativas e eficazes se juntarem todas as idades, que aliam o entusiasmo juvenil ao bom senso e à experiência.

 

O sistema político actual chegou a um impasse: os partidos que se reclamam do "arco do poder" estão a perder apoiantes, perderam a credibilidade popular de tal forma que mais uns anos e ficarão irrelevantes. O regime que neles se tem apoiado, prevendo isso, insiste noutra blindagem, o tal consenso.

A esquerda revela mais vitalidade, estando a surgir novos movimentos e partidos. E mais são necessários, não baseados em ideologias doutrinárias obsoletas, mas em princípios e valores fundamentais. Sim, novos movimentos e partidos, construir tudo de novo e pintar de fresco.

 

 

 

 

 

 

publicado às 23:28

Construir a esperança

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.02.14

Por mais sombrio que o presente e o futuro nos pareça, ver a realidade nua e crua é o primeiro passo para construir a esperança. É que não se pode construir a esperança sobre ilusões.

 

A esperança implica vitalidade, acção, movimento, mudança. Podemos visualizar um determinado cenário que queremos concretizar, mas se não iniciarmos um qualquer percurso que nos aproxime desse cenário, a esperança enfraquece.

 

A esperança é mais dinâmica quando lembrada, alimentada, partilhada. É como um exercício diário, um teste à nossa paciência. Por isso, a esperança respira melhor na interacção social

 

A esperança que podemos construir depende de um debate sério na sociedade civil, uma vez que da lógica partidária pouco podemos esperar a não ser a feira das ilusões. Alguns conseguem desmontar algumas dessas ilusões, mas já não conseguem sair da cultura do seu grupo de referência. A esperança depende de uma informação de qualidade, fidedigna, científica digamos assim, e incluo aqui as ciências sociais. 

 

Para os cidadãos e as suas vidas, este período de tempo limitado ANTES das eleições europeias é uma oportunidade única para um debate sério sobre o país que queremos a partir daqui. Não é a partir da saída da troika, pois a troika vai manter-se cá através do governo-troika, é a partir das eleições europeias.

 

 

As consequências do ajustamento são hoje fáceis de avaliar: austeridade para pobres, prosperidade para ricos. Afinal o que é que foi ajustado? Isso mesmo. Trabalho, pensões, acesso/qualidade do serviço público e prestações sociais. Quanto aos próprios políticos, incluindo os partidos, o parlamento, a administração pública central e local, não foram ajustados. E os grandes grupos económicos e a finança, também não.

As lideranças políticas que repetem agora até à exaustão que têm a legitimidade dos votos, distanciaram-se tanto do país e dos cidadãos que já não os representam, nem o país nem os cidadãos. Além disso, qualquer contrato que tenham feito com os eleitores já foi ignorado e traído vezes sem conta.

Mas os cidadãos ainda foram duplamente humilhados: quando se depararam nas televisões com o auto-elogio governamental e quando os tentaram iludir sobre a solidariedade europeia do empréstimo, os benefícios do ajustamento, e ainda quando lhes acenaram com a taxa de natalidade.

Triplamente humilhados se pensarmos na propaganda eleitoral europeia: act, react, impact. Reparem que apesar da devastação social e económica que a austeridade deixa atrás de si, insistem na mesma lógica. E o BCE ainda tem lucros com os empréstimos da solidariedade europeia... A propaganda eleitoral europeia é pueril e até perversa, e corresponde a uma ilusão. Desta vez é diferente, é o que o agressor doméstico compulsivo diz ao agredido: prometo que nunca mais te bato. Além de se ter distanciado dos cidadãos, a Europa das estrelinhas não deu o exemplo da fórmula de rigor que aplica aos países membros em apuros, é uma máquina pesada e mesmo extravaganteEsta Europa que se desviou do projecto inicial já não representa os cidadãos europeus. A esperança só pode estar numa Europa dos cidadãos. 

 

 

 

Temos, pois, de desmontar as ilusões que nos vendem uma a uma nas televisões:

 

1 - Não há saída da troika: a única diferença é que em vez das visitas periódicas, teremos uma monitorização à distância que ainda pode ser bem pior. O governo-troika irá continuar a razia dos cortes no trabalho, pensões, prestação de serviço público, prestações sociais, a que chamará ajustamento e rigor. De fora continuarão aqueles que não foram beliscados com a austeridade e, pasme-se, que até prosperaram com a desgraça dos seus conterrâneos.

 

2 - A esperança de uma vida com dignidade e qualidade não é possível com este governo e esta UE: a única oportunidade de construir alguma esperança para os cidadãos e as suas vidas é AGORA, como tenho insistido, ANTES das eleições europeias. Depois cai-nos em cima a lógica da austeridade e do ajustamento, que significa trabalho mal pago, trabalho precário, trabalho à hora, ia dizer à jorna, como em tempos idos. Os mais velhos continuarão a ver as suas reformas reduzidas, a ter dificuldade em comprar medicamentos e em manter condições básicas de dignidade. A emigração continuará a ser a única saída para jovens e menos jovens, qualificados e menos qualificados.

 

3 - A nossa recuperação económica só se pode concretizar e estabilizar com uma mudança da lógica europeia: não será com a união bancária, fiscal e política, como nos prometem, será precisamente com a flexibilidade de acordos económicos, flexibilidade fiscal e relativa autonomia política. A lógica inversa, precisamente. Quem julga que muda alguma coisa com a reciclagem da troika, isto é, o FME em vez do FMI, pense duas vezes. A cultura de base desta Europa desvirtuada e distante dos cidadãos mudou? A lógica que preside actualmente nesta Europa, em que os países mais fortes decidem sobre o destino dos mais fracos, que falhou na prevenção da crise financeira, que falhou na supervisão bancária, que falhou no controle das fugas fiscais, que falhou na intervenção aos países membros em dificuldades, acham mesmo que mudou? Que desta vez vai ser diferente?

 

 

Aqui ficam alguns vídeos a que juntarei outros vídeos que vou descobrindo no Youtube, neste período fundamental até às próximas eleições europeias:

 

 

 

 

 ...

 

 

A esperança também se constrói pela percepção de alguma capacidade de intervenção (empowerment) e de prevenção de situações que colocam em risco a vida e o futuro. Ora, neste momento, as pessoas sentem-se precisamente despojadas de todos os mecanismos de intervenção e de prevenção, sem qualquer poder sobre as suas próprias vidas e o seu futuro, sem vislumbrar sequer uma garantia de que a sua vida não vai piorar. 

 

Os princípios e valores (dimensão cultural) que lhes tinham sido vendidos pela democracia nacional e pela Europa moderna, foram sendo traídos, ignorados e até desprezados, perante os seus olhos incrédulos. Assistiu-se nas televisões à revolta dos gregos na praça Sintagma, e em vez da empatia com o seu desespero e impotência, divulgou-se na comunicação social o lado dos erros da gestão pública, o lado dos credores, o lado do poder. E no entanto, todos sabem que os gregos ricos escapam aos impostos. Quem foi ajustado violentamente? As populações indefesas. Esta é a realidade. Também vimos os nuestros hermanos nas ruas de Madrid, também sentimos o seu desespero, mas quem foi resgatado foram os bancos. Já viram alguém ser responsabilizado pela ausência de supervisão bancaria? Ou por se permitir a grande fuga e fraude fiscal no coração da Europa?

 

Há muitas formas de violência, física e psicológica. A austeridade aplicada às pessoas, às suas vidas, é uma forma de violência, física e psicológica. Se as pessoas tivessem observado uma qualquer racionalidade, equidade e legitimidade nas iniciativas que as foram despojando de qualidade de vida e de autonomia, a esperança ainda teria sido possível. Mas as pessoas perceberam que tinham sido enganadas, havia uma minoria que escapara à garra violenta da austeridade e que até prosperara com a desgraça da maioria. Também perceberam que, além desta desigualdade e injustiça, os objectivos da austeridade não eram a redução da dívida, do défice, e o ajustamento do estado na parte que deveria ser ajustada (reforma do estado), mas sim o ajustamento das vidas da maioria, o seu empobrecimento e a desvalorização progressiva do trabalho. Ora, isto é inadmissível numa democracia de qualidade.

 

Quando agora emergem à superfície os casos de violência doméstica, violência nas escolas, violência nas universidades, a avaliação deve ser feita em termos abrangentes e numa perspectiva cultural. Esta violência não é apenas potenciada pela austeridade, a violência é a sua própria marca, faz parte da sua cultura.

 

A prevenção de situações como as que actualmente nos condicionam e oprimem, só pode ser obtida com a avaliação dos resultados da intervenção das instâncias internacionais e europeias, e dos governos nacionais. Sem esta responsabilização a esperança no futuro fica comprometida. Estamos entalados na Europa das estrelinhas e se a sua cultura não mudar, se os princípios e valores que a fundaram não forem reabilitados, situações como a que actualmente vivemos voltarão a ocorrer e tenderão a piorar.

 

Mas não se trata apenas de avaliar os resultados da intervenção dos gestores políticos e financeiros, trata-se de prevenir de forma mais profunda, os riscos de violência futura: se propomos uma selecção profissional cuidadosa para qualquer actividade com alguma responsabilidade, mais cuidado se exige a um perfil profissional cuja intervenção irá afectar milhares e milhões de pessoas. E este cuidado não se deve ficar apenas pelas dimensões profissionais, mas também pela sua personalidade. Esta ausência de empatia que vemos generalizar-se nas lideranças políticas e financeiras e a sua colagem ao poder que é identificado com o sucesso, devia alertar-nos como comunidade, porque é um sinal de alarme. 

 

 

 ...

  

Como referi logo no início, para construir a esperança é necessário perceber a realidade em que vivemos e o seu contexto, numa perspectiva o mais objectiva possível, e por isso convoquei as ciências sociais. A psicologia e a psicologia social, a sociologia, e mesmo as neurociências, podem ajudar-nos a compreeender a lógica deste ajustamento social da austeridade, e como foi possível efectuá-lo de forma drástica e violenta, e como, tendo-se verificado ser contraproducente, portanto, ineficaz e até prejudicial, continua activo como um plano sem qualquer avaliação e responsabilização das lideranças que o promoveram e aplicaram.

 

A parte mais perversa da lógica da austeridade é: 

 

- a sua apresentação como benéfica, um remédio, quando na verdade, é um veneno que mata, por mais contrariadas que as lideranças que a defendem fiquem com esta frase. Além de matar fisicamente, a austeridade mata psicologicamente. Quando se instala o medo, a insegurança, a instabilidade, o desalento, a apatia, a esperança enfraquece e pode mesmo desaparecer.

 

- a austeridade foi-nos apresentada por lideranças que se apresentaram como o nosso médico, e os credores como benfeitores, a generosidade europeiaé um favor que nos fazem, pois a sua aplicação leva-as a fazer o sacrifício político de a aplicar, o que muito lhes custa...

 

- e agora um suspense... depois de muito trabalho e determinação da sua parte, a nossa situação mudou, mudou-se a página, a parte pior já passou, para poderem dizer que... valeu a pena.

 

- o que nos leva à parte mais perversa da austeridade: para a poderem defender, as lideranças têm de negar a realidade e o seu contexto, e apresentar, em sua substituição, a sua versão da realidade onde a austeridade se adapta. Têm, igualmente, de mentir sobre o futuro, pois a lógica da austeridade, não sendo viável não tem fim, é para permanecer como nova normalidade para a vida das populações, isto é, para a vida concreta das pessoas é sempre a descer mesmo que os gráficos estejam a subir.

 

 

A esperança é uma fonte de vitalidade e de acção virada para o futuro. É incompatível com um ambiente de falta de confiança na orientação que é proposta a uma comunidade, de ausência de expectativas fiáveis e de instabilidade constante. Esta instabilidade é provocada pelas lideranças que alteram as regras do jogo a toda a hora, para adaptarem a realidade à austeridade que, como vimos, não tem fim. O desespero levará à revolta, o que agravará a instabilidade.

 

Esta Europa das estrelinhas tinha instrumentos para resolver as diversas situações em que alguns países-membros se encontraram, mas escolheu aproveitar a oportunidade para fazer o ajustamento social com que provavelmente as suas lideranças sonhavam há muito:

- acabar com o serviço público de qualidade que consideravam um luxo muito caro;

- empurrar a classe média para baixo, pois é fonte de dores de cabeça quando reclama democracia;

- promover a aplicação e banalização da violência sobre populações inteiras e insistir nesse caminho.

 

 

Desta vez escolhi 3 vídeos relativos à América mas que respondem às mesmas grandes questões e grandes desafios que enfrentamos como país entalado na Europa das estrelinhas:

 

 

 
 
 

 

 

 ...

  

E pronto, penso que já referi o essencial sobre a nossa situação actual. Para finalizar como nos filmes, deixo aqui a lista dos principais representantes da marca Austeridade para pobres, prosperidade para ricos, primeiro o grupo internacional e depois o grupo nacional (preparei aqui algumas surpresas).

 

Grupo internacional da marca: Christine Lagarde; Durão Barroso; Olli Rehn; BCE; Eurogroup. 

 
Grupo nacional da marca: Os que melhor a representaram foram Vitor Gaspar e Passos Coelho, secundados por Maria Luís Albuquerque e Paulo Portas.
Mas não podemos esquecer que esta marca já tinha sido iniciada pelo anterior PM e os seus ministros das Finanças e da Economia: Teixeira dos Santos e Manuel Pinho, que não tiveram oportunidade de a implementar.
O privilégio de a implementar com toda a sua violência (para quem gosta de bater no mais fraco) acabou por ser dado ao par PSD-CDS.
 
Quem tiver a paciência de acompanhar os posts que aqui deixei, vai poder refrescar a memória ANTES de votar nas próximas eleições europeias.
Pense bem: quer continuar a levar pancada ou quer libertar-se desta praxe violenta sobre os portugueses?
É que se a Europa descobriu que as mulheres são um alvo fácil - violência doméstica e no trabalho -, os portugueses pobres,  os remediados e os que eram da classe média foram um alvo apetecível para esta marca violenta "Austeridade para pobres, prosperidade para ricos": 9 em cada 10 portugueses já levou pancada deste governo (impostos, cortes vários em salários e pensões sob falsos pretextos, desemprego, emigração, etc.) tendo parte destes portugueses, porque são sempre os mais frágeis, já levado umas traulitadas do anterior governo (impostos, desemprego, emigração, cortes de subsídios como o abono de família e os de portadores de deficiência; perseguição da ASAE aos feirantes, etc.).
 
 
Portanto, a marca já vinha de trás, é uma cultura praxista que já estava a emergir. Por vezes, visualizo a alegria pueril de Manuel Pinho e o seu sonho acalentado e finalmente concretizado, dos salários baixos... Ah, como era bom governar a desorçamentar e a fazer negócios futuristas apresentados em powerpoint... não ter de interagir com o povo que só serve para trabalhar, pagar impostos e votar de 4 em 4 anos...
Francisco Assis terá de se esforçar muitíssimo se quer vender a sua Europa ao centro e ao centro direita que tem princípios e valores democráticos, pois a marca do anterior governo PS não era amiga da democracia, distanciou-se dos cidadãos, acentuou as desigualdades sociais, iniciou a desertificação do interior do país, ignorou a supervisão bancária, escolheu proteger os bancos e os grandes grupos económicos, etc. e foi igualmente um bom aluno de Bruxelas.
 
A cultura narcisista foi-se implantando em Portugal: tudo pela imagem, nada pela vida concreta das pessoas. Desde que fique bem nos gráficos e nas estatísticas, o resto não interessa.
 
 
 
 
 
 
 

publicado às 23:07


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